segunda-feira, 25 de junho de 2012

A MANIA DA DOUTORICE - Por HUMBERTO PINHO DA SILVA











Visitava a nossa casa, garotinha, filha de industrial, a fim de receber lições de desenho, que meu pai, que cursara Belas-Artes, administrava graciosamente.

A moça, bem nutrida de carnes, não era bonita nem feia, possuía, porém, dois belos olhos, cor de cinza, que refulgiam e fascinavam, de modo a muitos declararem-na formosa.

 Estando meu pai, certa tarde, a falar com a mamã da menina, endireitou-se a conversa para lhe ensinar “ corte”, já que trabalhara, como modista, na juventude.

Arregaçou a mulher as finíssimas sobranceiras; esbugalhou os olhos de espanto, e replicou abespinhada: - Sr. Pinho: não quero que minha filha trabalhe… mas que seja doutora! …

Doutora, para ela, era sinónimo de vida folgada; viver do trabalho dos outros.

Trago este episódio a propósito da crónica de João Adelino, pivô e jornalista da RTP, publicada in: “ Dinheiro Vivo”, suplemento do “JN” de 14/04/12.

Conta o cronista: “ Faltava poucos minutos para iniciar mais um debate eleitoral televisivo. Um assessor fez-me saber que um dos convidados ameaçava não entrar no estúdio, porque não o tratei com respeito. E perante o meu espanto, esclareceu que eu era o único jornalista que não tratava o político por “ Senhor doutor”.

Como se sabe, em Portugal, ser “doutor” é imprescindível para quem deseje ser bem aceite. É praticamente título de nobreza, que abre portas à sociedade considerada elegante.

E prossegue o jornalista da RTP: “ Não há convidado na televisão, que não seja apelidado, invariavelmente, de “ doutor” ou “ engenheiro”.

Recorro, agora, à memória, para narrar cena ocorrida com meu pai ao sair da missa dos “ Congregados”:

Louvava-lhe conhecido advogado portuense as crónicas que publicava às sextas-feiras, taxando-as de excelentes; sua mulher, até perguntara-lhe que curso superior tinha o Pinho da Silva.

Como meu pai lhe dissera que não frequentara os bancos universitários, este respondeu: - “Continue…continue…porque para quem não é formado, tem muita habilidade! …”

Regressemos de novo à crónica de João Adelino: “ É muito difícil explicar a um britânico, a um alemão, um espanhol ou qualquer estrangeiro, porque chamamos “doutor” e “engenheiro” a todos nossos políticos. Afinal fora das nossas fronteiras, respeito é chamar alguém simplesmente…Senhor.”

Por isso o Ministro da Economia de Portugal., notável professor universitário, no Canadá, ao desembarcar em Lisboa, disse aos jornalistas, que podiam tratá-lo apenas por “ Álvaro”. Declaração que muitos nunca mais lhe perdoaram.




HUMBERTO PINHO DA SILVA   -   Porto, Portugal




Matéria enviada pelo autor por e.mail, para ser publicada – Confira-a no Blog PAZ, clicando aqui.

domingo, 10 de junho de 2012

Cavalo de padeiro e um jegue tinhoso















Luiz Carlos Nogueira









Não me lembro bem, mas parece-me que eu tinha em torno de 12 anos de idade, quando o meu pai tinha uma padaria.

Pois bem, naquela época os meninos e as meninas cooperavam de boa-vontade, com os seus pais, nas lidas diárias. Não tinha esse negócio de que agindo assim comprometeriam suas infâncias e suas juventudes. Uma grande bobagem! Nós meninos e meninas, sentíamos felizes e úteis alem do que aprendíamos coisas úteis para quando na idade adulta, poderíamos utilizar como de fato estamos utilizando.

Aprendíamos a usar um martelo, um serrote, dar nós, etc. coisas desse tipo que quem não fez isso quando jovem, hoje depende de quem aprendeu a fazer e vende serviços que usam esses apetrechos ou ferramentas. 

Tínhamos nosso tempo para rever as matérias escolares, para brincar e participar das reuniões familiares que nos davam muito prazer. 

Naquela época eu até invejava (no bom sentido) alguns amigos que como diziam: “tinham carteira de trabalho de menor” e trabalhavam em algum estabelecimento comercial ou de serviços.

 Atualmente, não raro vemos muitos jovens encrencados com algo muito fácil de consertar, mas que não sabem sequer por onde começar. É a turma da Internet, do Orkut, do Facebook, do MSN, e por aí afora. Serão os futuros profissionais “meia boca” como se costuma dizer, que quando aprende, aprende pela metade e depois fazem pela metade — ou seja, não fazem nada com qualidade. Dessa turma do Ctrl + C e do Ctrl + V, que faz suas tarefas escolares nessa base é que sairão os profissionais do futuro: engenheiros, advogados, professores, médicos, etc.

Pois é, mas vamos continuar a minha história. Como vinha dizendo, naquela época as padarias, assim como os açougues, as leiterias, faziam as entregas dos seus produtos em domicilio. O condutor da carrocinha da padaria (que diziam ser o padeiro), todos os dias fazia a entrega dos pães, roscas, torradas, etc., nas casas de cada um dos fregueses. Como todo dia era uma repetição de entregas, o cavalo se acostumava a parar em cada ponto de entrega, sem que o seu condutor lhe desse qualquer ordem ou puxasse as rédeas. — A parada era automática.

Assim, todos os dias eu tinha a incumbência de levar os cavalos para o pasto. E aí começava minha trabalheira com esses animais. Cada um parava no ponto que costumava ser conduzido para a entrega dos pães. Era uma coisa de maluco até chegar ao local onde seriam deixados para pastarem. Enquanto para mim era um sufoco, por outro lado os moradores da rua se deliciavam com a minha lida. Para eles era um espetáculo. Isso tudo sem contar que depois eu tinha que conduzir só um jerico, porque junto com a manada seria impossível. Aquele sujeitinho era muito tinhoso e sabido, aliás, quem diz que jerico (jumento) é burro (burro, neste sentido significa que não sabe o que faze. É um pequeno trocadilho que faço) não sabe do que esses animaizinhos são capazes de aprontar.

Esse era talvez o espetáculo mais esperado pelos vizinhos, porque eu sabendo tratar-se de um animal manhoso, levava-o para o meio da rua, para montá-lo. Quando ele sentia que eu já estava montado, ele se dirigia para cima da calçada e raspava o seu flanco, porque sabia que eu teria que encolher uma das pernas. Ao sentir que eu não o abraçava com as minhas pernas, ele saia em disparada e eu tinha que saltar de cima dele.

A seguir eu o perseguia para apanhar a ponta da rédea, na verdade uma corda com a qual improvisava um buçal, e que era usada para colocar em volta do seu focinho, a fim de poder conduzir o animal. Quando eu conseguia apanhar a rédea do pirracento e montá-lo novamente, ele se virava e tentava morder uma das minhas pernas. Logo eu encolhia a perna que ele tentava morder. Dessa forma o jerico sabendo que eu já não estava firme em seu lombo, danava a correr e eu tinha que sair correndo atrás dele até conseguir dominá-lo.

Por fim, quando chegávamos numa baixada o jerico começava a correr comigo em cima dele. Na verdade o que ele tentava era me derrubar, pois à frente existia uma goiabeira que cresceu torta, formando um arco que o jegue queria passar por debaixo. É claro, eu tinha que saltar do lombo dele de qualquer jeito, porque a intenção dele era perfeitamente previsível.

Baseado nessa pequena história verídica e de como os “animais irracionais” procuram se livrar de quem os importuna ou molesta, as vezes eu fico matutando por que será que nós “animais políticos racionais”, continuamos permitindo que políticos, em sua maioria vagabundos, mentirosos, ladrões, gente da pior espécie, etc, continuem praticando seus atos criminosos? Somos iguais a cavalos de padeiro que toda eleição estamos ali marcando o ponto para eleger esses safados? Por que não aprendemos a lição do jegue? Precisamos tirar esses patifes do nosso lombo já que nenhum tribunal os condena, ou quando condena logo conseguem se livrar.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

O aprendizado em três gerações - Por (*) João Bosco Leal


4 de junho de 2012
A maioria das pessoas, quando ainda muito jovens já se sentem no direito de discordar de seus pais, de adultos e até de idosos bem mais vividos e experientes do que eles.

É aquela fase do jovem “aborrecente”, que pensa já saber de tudo e bem mais do que os outros “velhos, quadrados e ultrapassados”, que não sabem de nada, que nasceram no“tempo da onça”, quando nem computadores, celulares ou internet existiam.

Que pensa ser muito superior aos mais velhos, simplesmente porque sabe utilizar vários programas de informática ou manusear com facilidade os controles remotos e os novos jogos eletrônicos que seus pais não sabiam sequer que existiam.

Muitas vezes julgam até as atitudes profissionais e comerciais de seus pais, dizendo-lhes como deveriam agir para trabalhar menos e ganhar mais, pois com aquela idade certamente já estariam muito ricos.

Durante essa fase esses jovens sabidos, revoltados por ainda terem de se submeter à determinação dos pais, erram bastante e desnecessariamente, simplesmente por não conseguirem entender que os mais velhos os orientam com amor, exatamente tentando evitar que tropecem ou caiam nos caminhos já conhecidos ou até já experimentados pelos próprios.

Normalmente esse entendimento só ocorre após o nascimento de seu próprio filho, quando sentem por ele o que seus pais sentiram desde a primeira vez que o viram, das noites em claro que passaram sem entender o motivo de seus choros, cuidando de suas dores, febres, inflamações e infecções, até que seu pequeno corpo fosse mais forte e capaz de criar as próprias defesas imunológicas.

A partir desse momento, passam a entender os motivos de certos comportamentos de seus pais que os revoltavam, mas agora fazem o mesmo com seus filhos, insistindo nas orientações sobre a importância dos estudos, das boas companhias, dos motivos para que se mantenham afastado de outras, do risco das drogas e tantas outras recomendações que frequentemente ouviam de seus pais.

Assumindo as responsabilidades de um lar, por vezes se lembram de quantas vezes reclamaram de suas roupas, calçados ou do tempero da comida, sem jamais questionarem quanto custou a seus pais colocar tudo isso à sua disposição.

Começam a entender os motivos pelos quais seus pais tanto pensavam no futuro, no plano de saúde, na escolha das escolas onde estudariam, nas economias para o pagamento de sua faculdade particular e na preocupação com a escolha que faria de sua futura profissão.

Esses jovens – como a maioria de nós -, passaram todo o tempo que viveram junto de seus pais sem entendê-los e discordando deles, perdendo assim a oportunidade de aprender com quem lhes ensinaria com amor, mas só percebem isso quando passam pela mesma experiência, sentindo agora que a discordância dos seus próprios filhos e o fato deles não seguirem muitas de suas recomendações, o que faz com que errem onde não seria necessário.

Tentando fazê-lo entender que no futuro também se arrependerá, o agora pai conta então a seu filho como atualmente se arrepende, de não ter ouvido os mais velhos.

A história se repete geração após geração, com os mais jovens pensando saber mais que os mais velhos, até que sejam eles próprios os mais velhos.

(*) João Bosco Leal - jornalista, reg. MTE nº 1019/MS, escritor, articulista político, produtor rural e palestrante sobre assuntos ligados ao agronegócio e conflitos agrários.
 
MATÉRIA ENVIADA PELO AUTOR, PARA PUBLICAÇÃO, SOB SUA EXCLUSIVA RESPONSABILIDADE – VEJA-A NO SEU SITE, CLICANDO AQUI.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Descriminação das drogas – A Comissão de Juristas andou queimando mato?











Por Reinaldo Azevedo









Os iluminados brasileiros continuam tentando a quadratura do círculo no que diz respeito às drogas. Também estamos vendo como seria o Brasil se entregue à tal Comissão de Juristas que elabora propostas de revisão do Código Penal. Ela já propôs a legalização do aborto, a definição do crime de homofobia (que abre as portas para o vale-tudo jurídico) e agora quer descriminar as drogas. Leiam o que informa a VEJA Online. Volto em seguida.


A Comissão de Juristas do Senado, que discute mudanças no Código Penal, aprovou nesta segunda-feira proposta para descriminalizar o porte de drogas para consumo próprio. Pelo texto, não haveria mais crime se um cidadão fosse flagrado usando entorpecentes. Atualmente, a conduta ainda é considerada crime, mas sujeita à aplicação de penas alternativas.


Os juristas, porém, sugeriram uma ressalva para a hipótese do uso de drogas. A pessoa poderá responder a processo caso consuma “ostensivamente substância entorpecente em locais públicos, nas imediações de escola ou outros locais de concentração de crianças ou adolescentes ou na presença destes”. Nessa hipótese, o usuário ficará sujeito a cumprir uma pena alternativa. A pena envolveria uma advertência sobre os efeitos do consumo de drogas, prestação de serviços à comunidade ou medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo.


O relator da comissão e procurador regional da República, Luiz Carlos Gonçalves, disse que o colegiado deu um passo para propor o fim da dúvida sobre se o porte de drogas para uso próprio é um ato criminoso ou não. Ele disse que a legislação atual, a Lei 11.343/2006, não é clara o suficiente nesse aspecto. A comissão sugeriu que a quantidade estipulada para consumo próprio será aquela em que a pessoa se valeria para uso durante cinco dias.


Tráfico

Os juristas decidiram que, pela proposta, o simples fato de ser realizada a venda de uma substância entorpecente seria considerado tráfico de drogas. “Se a pessoa é surpreendida vendendo, não importa a quantidade, é tráfico”, disse o relator. A comissão vai discutir nesta tarde se cria a figura de tráfico de drogas com maior ou menor potencial lesivo, com penas diferentes para variados tipos de substâncias.


O conselho tem até o fim de junho para apresentar uma proposta de reforma do Código Penal ao presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Caberá à Casa decidir se transforma as sugestões dos juristas em um único projeto ou as incorpora em propostas que já tramitam no Congresso.


Voltei

O que mais fascina nesses argumentos em favor da descriminação das drogas é a suposição de que elas tenham o dom de abolir os mecanismos de mercado. O que quero dizer com isso? Se o Poder Público, como seria o caso, criasse um forte estímulo à procura por uma determinada mercadoria, dar-se-ia o óbvio: o aumento da oferta. Isso quer dizer, no caso, o aumento do tráfico.


É inacreditável que estejamos debatendo esse assunto no momento em que o crack se revela um verdadeiro flagelo nacional. Tenho a certeza de que, nessas horas, o que se tem em mente são aqueles descolados de classe média, de rabinho de cavalo (faço uma caricatura para provocar as almas mais sensíveis) e olhar esgazeado-inteligente, que curtem um fuminho com a família na sala. Existem? Existem! Mas são a exceção. No mais das vezes, a droga representa destruição da individualidade, da família e do futuro. O crack, então, é um verdadeiro “pobrecida”: embora já tenha chegado à classe média, é e sempre será uma droga dos miseráveis.


Os que preferem fumar maconha a pensar com lógica (ou os que argumentam como se fumassem) gostam de lembrar que campanhas de esclarecimento levaram à queda no consumo de cigarros. Inferem daí que a legalização das drogas, se acompanhada das devidas advertências, poderia causar redução de consumo. É uma piada! Na hora em que consumir drogas deixar de ser crime, haverá uma explosão do consumo. Não há nenhuma razão para que fique abaixo do de cigarro ou álcool. “Ah, mas a venda continuará proibida…” É mesmo? Ninguém precisa andar mais de um quilômetro a partir do portão de casa para comprar. Os aviões — pequenos vendedores — vão se multiplicar, sempre portando quantidades que não caracterizam tráfico.


Notem que a tal comissão, muito preocupada com a família, quer coibir a venda nas imediações das escolas. Ah… São milhares de estabelecimentos de ensino Brasil afora. Não há polícia para isso. Este já é o país com mais de 50 mil homicídios por ano! Imaginem se haverá mão de obra (agora sem hífen, na nova ortografia “fumada”) disponível para isso.


Mais: o país está a um passo de aprovar o “álcool zero” ao volante. Uma taça de vinho, nesse caso, renderia severas punições a um motorista, mas não o consumo de maconha, cocaína ou crack antes de dirigir. Não existe “bafômetro” para essas drogas.


Espero que o Senado tenha o bom senso de jogar no lixo boa parte das sugestões feitas por essa tal comissão.


Fonte: Revista Veja – Acervo Digital – Blog do Reinaldo Azevedo – Clique neste link para conferir: