terça-feira, 20 de setembro de 2011

QUÍMICA PERIGOSA - ÁLCOOL E DROGAS EMBALAM OS CRIMES

Exclusivo Online
Entrevista
Química perigosa
Álcool e drogas embalaram os crimes sexuais praticados por boa parte dos condenados pesquisados pelo psiquiatra Danilo Baltieri
Texto: Eloisa Deveze

Depois de entrevistar 218 apenados, o psiquiatra Danilo Baltieri, responsável pela assistência aos alcoólicos e dependentes químicos do Hospital das Clínicas de São Paulo e coordenador do Ambulatório de Transtornos da Sexualidade (ABSEX) da Faculdade de Medicina do ABC, descobriu que os agressores sexuais são um grupo para lá de heterogêneo. Mas um dado é recorrente em grande parte dos casos: o consumo inadequado de bebidas alcoólicas e/ou drogas no dia da agressão. O psiquiatra, que também é membro do Conselho Penitenciário do Estado de São Paulo, falou a CRIATIVA sobre sua pesquisa.


CRIATIVA -O que leva os homens a cometer crime sexual?


Danilo Baltieri - Uma combinação de motivos. Os agressores não conseguem controlar sua impulsividade sexual. Somado a isso, têm uma percepção distorcida da realidade, agravada pelo abuso do álcool e de outras drogas, e ainda por crenças extremamente machistas. Eles acreditam que figuras femininas estão sempre emitindo mensagens de conteúdo sexual. Quando uma mulher cruza as pernas, entendem que ela quer fazer sexo.


CRIATIVA - O senhor afirma que o consumo inadequado de álcool e outras drogas pode desencadear os crimes sexuais. Por quê?


Danilo Baltieri - Eles desinibem e liberam os impulsos nos indivíduos em geral. No caso dos agressores, que já não conseguem se conter em situação normal, essas substâncias vão produzir efeitos mais intensos. Eles perdem o controle sobre si mesmos e a noção de limite, além de distorcer ainda mais sua compreensão da realidade. O álcool, a propósito, tem um papel decisivo nos estupros. Até 60% dos agressores haviam bebido no dia em que cometeram a agressão - e até 55% das mulheres estupradas também tinham consumido álcool. Isso, claro, facilita o ato do agressor, pois a bebida diminui a capacidade de defesa da vítima.



CRIATIVA - Todos os agressores sofrem de graves distúrbios mentais?


Danilo Baltieri -Nem todos. Os pedófilos e alguns agressores de mulheres são realmente vítimas de transtornos psiquiátricos sérios - de personalidade, de preferência sexual - e devem ser tratados com terapia e medicação para controlar seus impulsos desviantes. A falta de tratamento adequado contribui para a reincidência. Outros agressores, por sua vez, não têm transtornos mentais. Mas, na minha opinião, também precisam de cuidados médicos e psicossociais para evitar a reincidência, pois apresentam uma ampla gama de comportamentos desviantes e pensamentos disfuncionais.


CRIATIVA - Qual é o perfil dos agressores de crianças e de mulheres?


Danilo Baltieri -Os primeiros têm cerca de 40 anos, a maioria molesta crianças conhecidas, em geral filhos e enteados, e é mais dependente de álcool do que das drogas. Os agressores de mulheres são mais jovens, com 33 anos, em média, atacam desconhecidas e abusam mais das outras drogas. Em minha pesquisa, o abuso de drogas está significativamente mais associado à agressão de mulheres. mas todos os agressores têm, em sua maioria, baixo nível socioeconômico. Entre os molestadores de crianças, 60% são casados, 20%, solteiros, 18%, separados e 2%, viúvos. Entre os agressores de mulheres, 50% são casados, 30%, solteiros e 20%, separados.


CRIATIVA - Como agem os pedófilos?


Danilo Baltieri -Grande parte prefere acariciar genitais e fazer sexo oral a praticar ato sexual vaginal e anal. Entre eles, há os pedófilos homossexuais, que molestam meninos, e os heterossexuais, que agridem meninas. Também há os que não praticam nenhum tipo de ato sexual em si, apenas fantasiam sexo com crianças. Para abordar, há duas estratégias: os que “gostam” de crianças procuram agradá-las para ganhar sua confiança, dando doces, brinquedos, dinheiro. Os chamados pedófilos agressivos fazem sexo à força e até batem nas vítimas.


CRIATIVA - E os agressores de mulheres?


Danilo Baltieri -Eles agem de modo variado. Podem puxar conversa com uma mulher em um bar, por exemplo, esperá-la sair para segui-la e agredi-la. Ou atacar uma total desconhecida na rua. Esta é a opção da maioria. Alguns estupradores também agridem as mulheres fisicamente, para subjugá-las.


CRIATIVA - Os agressores sexuais sentem-se mal depois da violência?


Danilo Baltieri -Nem todos. Alguns sentem-se culpados, sim, por não conseguirem superar esse problema. Outros não sentem nada.


Fonte: Revista Criativa.Globo.Com – Clique aqui para conferir esta matéria

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O que nos pertence

12 de setembro de 2011

Por João Bosco Leal

Recebi um texto bastante interessante sobre uma pessoa que havia morrido intempestivamente e iniciou um bate papo com aquele ser diferente, a morte, que havia vindo buscá-la. A pessoa perguntava então sobre o que poderia levar, desde bens materiais, amigos, até o próprio corpo.


As respostas, sempre negativas, mas explicadas com delicadeza, davam conta que os bens materiais não lhe pertenciam, só haviam sido emprestados, os amigos eram peças do caminho, os filhos, do mundo, o corpo, da terra e, finalmente, concluindo que literalmente nada levaria, perguntou então o que na vida que acabara fora realmente dele. A resposta foi que dele sempre foi cada segundo de existência, o tempo.


Refletindo sobre o texto, percebi sobre como nunca me preocupei com a única coisa que realmente me pertence, o tempo, que pode ser utilizado como e quando eu quiser.


Sobre o tempo passado, penso que poderia ter brincado, estudado, lido, trabalhado, ou qualquer outra atividade em maior ou menor quantidade do que fiz, mas isso agora já não interessa, pois não há como mudar.


Cuidar mais ou menos da saúde, beber, fumar ou praticar esportes, em qualquer quantidade, também é uma opção de cada um e o que fiz com essas alternativas também não poderá ser alterado.


Desenvolvendo raciocínios como esses, acabo percebendo coisas que poderia ter feito de outra maneira e quantas repetiria, mas que minha única alternativa atual é, analisando esse passado, tentar corrigir as escolhas erradas e fazer muito mais das que acertei.


Seria insensatez repetir erros que já me convenci realmente terem sido erros, como voltar a fumar quando já havia parado. Mas vejo pessoas conscientes, maduras, repetirem erros como esse, com as mesmas desculpas sempre utilizadas por todos, que estavam em uma fase difícil, ansiosos, etc…, sem pensar no bem mais precioso que possui: a vida, ou na daqueles que os cercam, como seus filhos.


Depois de determinada idade, nossa vida passa a incluir outras pessoas, como esposa, filhos e até netos, que não podem nos impedir de realizar nada, mas sofrerão as consequências de nossos erros, como uma doença provocada por bebidas ou cigarros, o que imagino ser motivo suficiente para que todos tenhamos mais responsabilidades com as decisões que tomaremos, em qualquer área, de relacionamento, comercial ou de lazer.


Os prazeres terrenos como os da leitura, esportes, aventuras ou mesmo os físicos, são incontáveis e cada um de nós possui o dom de poder escolher o que mais lhe agrada, mas quando isso envolve outras pessoas é necessário também levarmos em consideração os riscos de nossas opções, para que suas consequências não afetem exatamente aqueles a quem mais queremos bem.


Já errei bastante em muitas áreas e não me arrependo de praticamente nenhum deles, à exceção daqueles que hoje percebo, provocaram dor em meus filhos, como meu recente acidente e suas consequências. Entendo agora que um dos prazeres por mim escolhido, as viagens de moto, foram fantásticas, me deram muito prazer, mas também provocaram sérias consequências, em mim e nos meus.


Como desde nosso nascimento estamos cada vez mais estamos próximos da conversa com aquela que virá nos acompanhar na última viagem, precisamos estar sempre atentos para a única coisa que realmente nos pertence: nosso tempo e como o utilizamos.


Vivendo sem muito querer, mas nunca deixando de tentar tudo o que se quer, ser ou ter, seremos e teremos tudo o que pudermos ser, ou ter, sem provocar dor em nossos próximos.

Clique aqui para conferir no site do autor, esta matéria recebida por e.mail

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

PROPOSTA DO PT DE REGULAR A MÍDIA PODE REPRESENTAR CENSURA

Ophir condena proposta do PT de regular a mídia.
(Foto: Eugenio Novaes)

Ophir: proposta do PT de regular a mídia assusta e pode representar censura





Brasília, 05/09/2011 - O presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil, Ophir Cavalcante, fez hoje (05) duras críticas à conclusão do 4º Congresso Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), que propôs um marco regulatório da mídia. Em entrevista, Ophir afirmou que essa postura do PT "assusta", porque pode representar uma forma de censura, pondo em risco a liberdade de imprensa no País e, em consequência, a democracia. "Não há democracia sem uma imprensa livre. Por isso, a partir do momento em que se coloca alguns tipos de restrições, como quer o PT, à imprensa, à sua concepção e ao poder de formulação e de questionamento de cada jornalista, é algo que representa uma restrição à determinação constitucional de que a imprensa é livre neste País", sustentou.


O presidente nacional da OAB destacou que o ordenamento jurídico brasileiro já prevê sanções contra quem incorrer em crimes de imprensa. "Portanto, o que não se pode é, previamente, estabelecer políticas sobre como dever ser pautada a imprensa brasileira. Isso é censura; isso, efetivamente, é negar esse valor fundamental da democracia que é a liberdade plena de imprensa", reagiu. Segundo ele, caso o PT apresente o projeto de regulação da mídia ao Congresso Nacional, a OAB vai participar ativamente das discussões a manifestar seu posicionamento.


"O Congresso Nacional é o local adequado para os debates; e a OAB está à disposição dos senhores deputados e senadores para debater exaustivamente essa matéria, que interessa diretamente à democracia", salientou Ophir Cavalcante." Nós estamos vendo países aqui na América do Sul e em alguns lugares do mundo em que há restrições à liberdade de imprensa. São países que, infelizmente, não preservam esse bem maior para a democracia que é a liberdade de imprensa, a liberdade de imprensa. A ordem não quer que esses maus exemplos de países totalitaristas, ditatoriais, venham para o Brasil. O Brasil é uma democracia e na democracia a liberdade de imprensa é plena".


Segue a íntegra da entrevista do presidente nacional da OAB, Ophir Cavalcante, sobre a proposta do PT de marco regulatório da mídia:


P - Presidente, como a OAB vê essa proposta do PT, de controlar e fazer esse marco regulatório da mídia?


R - De uma forma muito negativo. Essa postura do Partido dos Trabalhadores assusta. Assusta porque falar em democracia, é falar em liberdade de imprensa e liberdade de expressão. Não há democracia sem uma imprensa livre. Por isso, a partir do momento em que se coloca alguns tipos de restrições, como quer o PT, à imprensa e à sua concepção e ao poder de formulação e de questionamento de cada jornalista, é algo que representa uma restrição à determinação constitucional de que a imprensa é livre neste país.


P - O PT fala em marco regulatório, em nova lei, mas já existe uma legislação que deveria ser suficiente, não?


R - A própria Constituição é muito clara no sentido de afirmar que há liberdade completa de imprensa no Brasil. Este é um valor maior da democracia brasileira e no mundo inteiro, onde existe democracia. Portanto, em qualquer situação que ultrapasse o limite da liberdade de imprensa, há medidas judiciais a serem tomadas , seja contra o jornalista ou o órgão de imprensa ao qual ele pertence. Enfim, o ordenamento jurídico brasileiro já prevê sanções contra quem incorrer em infrações ou crimes de imprensa. Agora, o que não se pode é, previamente, estabelecer políticas sobre como dever ser pautada a imprensa brasileira. Isso é censura; isso, efetivamente, é negar esse valor fundamental da democracia que é a liberdade plena de imprensa.


P - A OAB vai se posicionar, pretende participar caso o PT venha propor esse projeto de lei do marco, ou caso venham a propor alguma medida que represente censura à imprensa?


R - Não há dúvida de que essa é uma questão bastante sensível e a Ordem vai se posicionar, sim, no sentido de defender a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa em nosso país. O Congresso é o local adequado para os debates; e a OAB está disposta a ir até o Legislativo e à disposição dos senhores deputados e senadores para debater exaustivamente essa matéria, que interessa diretamente à democracia. Nós estamos vendo países aqui na América do Sul e em alguns lugares do mundo em que há restrições à liberdade de imprensa. São países que, infelizmente, não preservam esse bem maior para a democracia que é a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa. A Ordem não quer que esses maus exemplos de países totalitaristas, ditatoriais, venham para o Brasil. O Brasil é uma democracia e na democracia a liberdade de imprensa é plena.


Fonte: Site do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil – Clique aqui para conferir

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Eles têm culpa, sim – Entrevista concedida à Revista Veja, por Anthony Daniels


O Psiquiatra e escritor inglês diz que as teorias sociológicas e psicológicas para explicar o Crime e o vício em drogas produzem cidadãos que não assumem suas responsabilidades.



Entrevistado: ANTHONY DANIELS



Entrevistador: Diogo Schelp - Revista Veja, edição de 17 de agosto de 2011



O psiquiatra inglês Anthony Da­niels, de 61 anos, é mais conhe­cido em seu país como Theodore Dalrymple, pseudônimo utili­zado por ele em artigos com análises impiedosas mas realistas sobre o siste­ma prisional, o comportamento dos cri­minosos e o vício em drogas, entre ou­tros temas.



Aposentado desde 2005, começou a escrever sobre sua expe­riência de quinze anos como Médico em prisões britânicas quando ainda es­tava na ativa, daí a necessidade de assi­nar com outro nome. Antes, trabalhou em países africanos como Tanzânia, África do Sul e Zimbábue. Daniels é autor de 22 livros e colaborador regular de publicações como a revista The Spectator e o jornal The Telegraph. Re­centemente, escritos seus sobre a im­portância da religião foram citados no manifesto de Anders Breivik, o autor do massacre na Noruega. "Não fiquei nada feliz com isso", diz Daniels. Na semana passada, em visita ao Brasil, ele falou a VEJA.



O senhor costuma dizer que a influência das teses do suíço Jean-Jacques Rous­seau (1712-1778) prejudicou a noção de responsabilidade no mundo atual. Por quê?



Rousseau difundiu a idéia de que o ser humano é naturalmente bom, e que a: sociedade o corrompe. Eu não sou religioso, mas considero a visão cristã de que o homem nasce com o pecado original mais realista. Isso não significa que o homem é ine­vitavelmente mau, mas que tem de lu­tar· contra o mal dentro de si. Por in­fluência de Rousseau, nossas socieda­des relativizaram a responsabilidade dos indivíduos. O pensamento intelec­tual dominante procura explicar o comportamento das pessoas como uma conseqüência de seu passado, de suas circunstâncias psicológicas e de suas condições econômicas. Infeliz­mente, essas teses são absorvidas pela população de todos os estratos sociais. Quando trabalhava como médico em prisões inglesas, com freqüência ouvia detentos sem uma boa educação formal repetindo teorias sociológicas e psicológicas difundidas pelas uni­versidades. Com isso, não apenas se sentiam menos culpados por seus atos criminosos, como de fato eram trata­dos dessa maneira. Trata-se de uma situação muito conveniente para os bandidos, pois permite manter a cons­ciência tranqüila. Podem dizer que roubam porque não tiveram oportuni­dades de estudo, porque nasceram na pobreza ou porque sofreram algum trauma de infância, entre outras des­culpas. "Enquanto a sociedade não mudar, não se pode esperar que eu me comporte de outra forma", tal é o dis­curso corrente entre os presos.



Por que os intelectuais incentivam esse pensamento?



Intelectuais são, em geral, pessoas muito desonestas. Eles não pensam em si mesmos como irrespon­sáveis, mas costumam atribuir essa ca­racterística a outras pessoas com gran­de facilidade. Ao criarem explicações sociológicas e psicológicas para des­vios de comportamento, eles acabam por desumanizar os criminosos. Um exemplo disso ocorreu na Inglaterra anos atrás, quando houve uma onda de furtos de cano. Os bandidos envolvi­dos nesses crimes, além de lucrar com isso, realmente gostavam da emoção de furtar muitos veículos em um curto pe­ríodo de tempo. Alguns criminologis­tas e psicólogos, ao analisar o fenôme­no, começaram a dizer que furtar car­ros era uma forma de vício. Sobre essa teoria, produziram-se inúmeros estu­dos, alguns dos quais incluíam até exa­mes de ressonância magnética do cére­bro dos bandidos, para provar que se tratava de uma doença neurológica. Em pouco tempo, os ladrões de carro co­meçaram a me dizer na cadeia que eram viciados em furtar veículos. Eles obviamente não chegaram a essa con­clusão sozinhos. Apenas estavam repe­tindo urna tese produzida por arrogan­tes intelectuais de classe média que desconsideravam o fato de os bandidos serem capazes de escolher entre o certo e o errado independentemente de fato­res externos. Negar sua capacidade de discernimento é o mesmo que diminuir sua humanidade.



Isso também vale para criminosos com prováveis distúrbios mentais, como An­ders Breivik, que matou 77 pessoas no mês passado na Noruega?



Sim. Breivik pode ser louco, mas nem por isso é menos responsável por seus atos. Na tradição legal anglo-saxônica, o mero fato de você ser doente mental não sig­nifica que não esteja apto a responder por um crime. Depende do tipo e do grau da loucura. Suponhamos que os médicos descubram que Breivik tem um tumor no lobo frontal do cérebro. Em casos como esse, o indivíduo pode, sim, ser menos responsável por seus atos. Da mesma forma, muitos idosos com Alzheimer perdem a inibição se­xual e comportam-se de maneira ina­propriada. Há, portanto, algumas doen­ças neurológicas que atrapalham a ca­pacidade da pessoa de ter consciência plena de seus atos criminosos ou antis­sociais. Não acho que Breivik se encai­xe em nenhuma dessas categorias.



É possível arriscar um diagnóstico sobre Breivik?



O assassino norueguês é, ob­viamente, um homem muito estranho. , Ele tentou justificar a matança com um manifesto de 1500 páginas. A leitura de algumas páginas é suficiente para notar características muito claras.


A primeira é que ele acredita ter en­contrado as respostas para todos os problemas do mundo. A segunda é que ele é paranóico, pois pensa que há uma grande conspiração destruindo seu país. Terceiro, ele é narcisista. Breivik tem uma idéia muito elevada e exage­rada de sua própria aparência. À parte tudo isso, ele também tem inúmeros ressentimentos pessoais. Seu pai o abandonou quando ele era ainda muito jovem, por exemplo. A verdade, po­rém, é que nada disso serve para traçar o perfil de um assassino como ele. É possível encontrar muitas pessoas com as mesmas características e que nunca fizeram ou farão o que ele fez.



Em seu manifesto, a frieza de Breivik es­tá expressa na convicção de uma verda­de absoluta sobre o mundo. O senhor identificou frieza parecida, beirando a psicopatia, ao analisar a obra de ficção de Cesare Battisti, o terrorista de es­querda que foi condenado por quatro as­sassinatos na Itália e ganhou visto de permanência para viver no Brasil. O se­nhor vê semelhanças entre os dois?



Há semelhanças, sim. Ambos tinham certeza de que, com seus crimes, estavam fazendo o bem. Isso, evidentemente, demonstra que não tinham nenhum senso de proporção. Eles não conse­guiam perceber que sua irritação em relação à sociedade, ao sistema político e ao governo de seu país era, na verda­de, irrelevante e de uma dimensão muito inferior comparada a todos os outros problemas da humanidade. Sem esse freio psicológico ou moral, eles se con­sideraram no direito de dispor da vida de inocentes como bem entenderam.



Como explicar a simpatia de intelectuais e políticos brasileiros por Battisti?




Acho que, na visão dessas pessoas, Battisti teve coragem de exibir uma brutalidade que elas gostariam de ter tido em algum momento da vida. Ao apoiá-lo, elas dão respaldo simbólico a um passado pessoal perdido. Além disso, os crimes perpetrados por esta­dos e grupos totalitários de esquerda ainda encontram justificativa ideológi­ca. Muita gente acredita piamente que os erros cometidos em nome do co­munismo foram por uma causa nobre, o que é um absurdo. Em especial, os intelectuais que compactuavam com o marxismo. Dá para entender: eles eram levados a acreditar que tinham um papel de liderança na sociedade. Com o desmoronamento do Muro de Berlim, foram empurrados para a irre­levância. Tudo o que esses intelec­tuais mais odeiam é uma sociedade que não precisa deles. Por isso, prote­gem indivíduos como Battisti: para reviver um período idealizado.



O senhor é a favor de prender consumidores de drogas?



A maneira como ve­mos o vício de drogas é errada. Trata­mos os viciados como vítimas, incapa­zes de ser responsabilizados por suas escolhas. Isso é falso. Eles não são ví­timas de seu próprio comportamento. Não existe droga tão viciante a ponto de ser impossível livrar-se dela. Os drogados usam os entorpecentes por uma decisão pessoal. Isso não significa que eu não me solidarize com essas pessoas. O estado mental que as drogas induzem é muito atraente para elas, em comparação com sua realidade. Mas, quando cometessem algum crime, ain­da que pequeno, sob efeito de drogas ou para comprá-las, os viciados deve­riam ser forçados a entrar em uma clínica de reabilitação. Se não aceitassem o tratamento, deveriam ser mandados para a prisão. Isso lhes daria motivação para levar a sério o processo de reabili­tação, pois o maior problema com o ví­cio é que as pessoas não encontram ra­zões para parar. O medo da prisão pode ser uma delas. A outra é a certeza de ter uma vida melhor livre das drogas.



A prisão pode ser eficiente mesmo com a facilidade de conseguir drogas atrás das grades?



Sim, porque o indivíduo não estará na rua, violando a lei. A prisão não é uma instituição terapêuti­ca. Sua função principal é prevenir crimes que um condenado poderia co­meter se estivesse solto. Há também evidências de que, quanto mais tempo uma pessoa fica na cadeia, menor a probabilidade de voltar à bandidagem depois de ser libertada.



Penas longas são mais eficientes?



Sim. Na Inglaterra, por exemplo, temos pe­nas muito brandas e poucos detentos. Isso não é bom. A polícia inglesa, muito incompetente, prende apenas um em cada doze assaltantes de casas .. Destes, um em cada treze recebe pena de prisão. Isso significa que apenas um em cada 156 assaltantes cumpre pena em presídio. A média para esse tipo de crime é de um ano de cadeia. Na In­glaterra, isso significa que o bandido é solto em apenas seis meses. Com uma punição tão leve, a pergunta não é por que ocorrem tantos assaltos, mas por que há tão poucos. Meu país deixou de ser uma sociedade ordeira para se tor­nar uma das mais afetadas pela crimi­nalidade, quando comparada a outras da Europa. O número de presos caiu em proporção ao de crimes. Em 1900, para cada 6,5 crimes registrados, havia um detento. Em 2000, eram 114 cri­mes para cada preso. Claro que penas curtas são melhores do que nada. Um bandido reincidente comete, em mé­dia, 140 crimes por ano. Ou seja, se ele for mantido na prisão por seis me­ses, setenta crimes serão evitados, o que também é bom. Um dos argumen­tos contra as penas de prisão é que a maioria dos detentos é pobre, e que is­so é injusto. Ocorre que a maior parte de suas vítimas também é pobre.

E, como o número de vítimas é sempre muito maior do que o de bandidos, prendê-los não é uma punição aos pobres, mas um benefício a eles.



A Justiça brasileira passou a ter à sua disposição medidas alternativas à prisão preventiva, como monitoramento eletrô­nico e pagamento de fiança. Isso é bom?



Pela experiência britânica, tais medidas são um desastre. Um terço de to­dos os crimes da Escócia, inclusive es­tupros e assassinatos, é cometido por pessoas em liberdade condicional. Sou a favor desse recurso em algumas cir­cunstâncias, como para crimes não violentos, mas para uso geral é uma tragédia. As tornozeleiras eletrônicas são uma temeridade em lugares onde a administração pública não é eficiente. Nem na Inglaterra a polícia consegue monitorar os criminosos com esses equipamentos. A pena de prestação de serviços comunitários também é um pesadelo. A taxa de reincidência para bandidos condenados a prestar servi­ços comunitários é a mesma dos que recebem pena de prisão: 70%. O pro­blema é que a estatística conta apenas os crimes cometidos após o fim da pe­na. Nada garante que, enquanto estão soltos, prestando serviços comunitá­rios, eles não cometam novos crimes. Por fim, em média, cada detento na In­glaterra já foi condenado outras dez vezes a penas alternativas. Ou seja, não adiantou nada. Basicamente, ao saber que cumprirão penas alternativas e ficarão soltos, os bandidos se con­vencem de que não têm nada a perder ao cometer um crime. É melhor man­tê-los presos, e por bastante tempo.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

BELIGERÂNCIAS DO SER




Edson Paulucci


Quantas vezes tentei superar

essa falta de harmonia entre

os diversos seres que me habitam.

Sempre em trajes de campanha,

camuflados, vivemos armistícios...

de longa duração...curta resistência.

Nunca adiantou capitular nem

desfazer barricadas.

Sempre houve um cerco...ameaças.

Muitas cortes marciais, mas apenas

condenações de efeito.

A paz...essa pomba ícone nunca

arredou vôo de seu ninho.

Nem nunca bandeiras brancas tremularam.

Todos vencemos e fomos vencidos.

Paradoxos dessa guerra quente

entre inimigos amigos imaginários.