14 de maio de 2012
Por (*) João Bosco Leal
O homem começou então a recolher e
colocar na calçada tudo o que podia em meio ao movimento de carros que
por lá passavam, uns desviando, outros passando por cima de objetos ou
buzinando, vi que eram caixas com os mais variados pertences.
Identifiquei um espelho de mão quebrado,
algumas canetas, papéis voando em meio a cada um dos veículos que por
lá passavam, uma escova e um secador de cabelos, um boné, camisetas,
blusas, enfim, uma variedade de coisas que me deixavam intrigado sobre o
que teria ocorrido.
Algumas caixas pretas de plástico
estavam quebradas e seus pedaços esparramados pelo chão quando veio
outro homem, provavelmente companheiro do primeiro, pois também desceu a
avenida correndo do mesmo local de onde viera o outro e com este foi
conversando e já ajudando a recolher mais coisas.
O semáforo abriu e enquanto cruzava
lentamente a avenida, já mais próximo do local, pude perceber melhor o
que ocorrera. Um pequeno caminhão levava uma mudança e quando fez a
curva saindo da rua onde eu estava para entrar na avenida, de sua
carroceria caíram dois gaveteiros de plástico que se quebraram ao bater
no chão.
Imediatamente lembrei-me de um conto que
havia lido há muito tempo onde um morador de um edifício fazia sua
mudança de um apartamento para outro no mesmo prédio e pouco a pouco
levava pessoalmente seus pertences. As roupas eram transportadas nos
próprios cabides, caixas levavam panelas pratos e talheres, pequenos
objetos e tudo o que pudesse levar com os próprios braços ou no carrinho
de compras do prédio.
Em uma dessas vezes entrou no elevador já
cheio de pessoas carregando uma gaveta de seu criado mudo com tudo o
que tinha dentro dela, mas que sequer tinha olhado o que era.
Segurando-a com as duas mãos, notou que
as pessoas olhavam para a gaveta com tanta curiosidade que também
dirigiu para ela o seu olhar. Viam ali expostas muitas de suas coisas de
uso pessoal, como um cortador e uma lixa de unha, um chaveiro antigo,
um estojo de fio dental, uma tesoura de unhas, uma caneta, bilhetes que
nem lembrava mais quem os havia enviado, vários envelopes de
preservativos e outros objetos inconfessáveis. Uma situação
constrangedora, que não havia mais como ser reparada ou escondida.
Os dois casos me fizeram pensar em como
acabamos guardando histórias em gavetas. Quantos papéis, documentos,
bilhetes, lembretes, fotos ou diversos outros objetos guardamos em
nossas gavetas e nunca mais vemos? Quantas vezes ao abrir uma gaveta nos
surpreendemos, com objetos que nos fazem lembrar coisas passadas que já
haviam sido apagadas de nossa mente ou nos mostram algo que sequer
lembrávamos possuir? Quantos segredos podem ser revelados em uma gaveta
de criado mudo?
As gavetas são como um arquivo morto de
nossas vidas. De tempos em tempos é necessário reabri-las e delas
retirar o que não serve mais, que não necessitamos ou que já não será
usado.
Nelas encontramos coisas que gostaríamos
ou não de lembrar e objetos que mesmo não nos sendo úteis, servirão
para outras pessoas que deles necessitam. Uma ótima oportunidade de
realizarmos atos de caridade, tão necessários na vida de todos.
Abra suas gavetas e reveja sua
história, jogando fora as coisas sem valor, doando o que outros
necessitam e lá deixando só o que realmente merece ser lembrado e
guardado.
(*) João Bosco Leal -
jornalista, reg. MTE nº 1019/MS, escritor, articulista político, produtor rural
e palestrante sobre assuntos ligados ao agronegócio e conflitos agrários.
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